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- 13.08.2008 | - Gisela Rodenburg Porque o mau Gosto é Bom e Necessário.
O tempo que dedicamos à beleza
Corri quando ouvi o metrô se aproximando, descendo as escads, checando o relógio e constantando o inevitável atraso. Algumas paradas depois e mais correria, the smiths no ipod, café em uma mão, andava apressada pela estação quando subi a escada e tomei a rua. Lá em cima o sol resolveu me dar bom dia. Até aquele momento eu nem tinha me dado conta do dia lindo, pensei em desacelerar enquanto atrevessava para chegar na Madison mas desisti. O dia estava lindo mas parar para apreciá-lo exigia os minutos que eu já tinha perdido, e que portanto não pertenciam mais a mim. O pensamento do dia foi rapidamente substituído pelo pensamento do primeiro compromisso.
Muitas horas e muitos espressos depois, finalmente tirei alguns minutos para ler o email de uma amiga. Era um artigo do Washington Post, o título: “Pearls before breakfast”. Gene Weingarten sugeriu a Joshua Bell, talvez o maior violinista da atualidade, que tocasse em uma estação de metrô em Washington, na hora do rush. A intenção era ver a reação das pessoas: “quando você esta com pressa, você passa correndo por um músico de metrô, irritado com o tempo e os trocados que o músico pode esperar de você?”, pergunatva o jornalista, ao leitor. “ Será que você joga um dólar, só para ser educado?. "A sua decisão muda se ele for bem ruim? E se ele for muito bom? Será que você tem tempo para beleza? Será que você não deveria?”. Como se podia esperar muito poucas pessoas pararam para apreciar, naquela manhã, o que outras pagam caro para ver. Dentre as seis pessoas que deram qualquer atenção uma crianca, que foi logo apressada pela mãe. Li o artigo (que aliás, recomendo) e lembrei da ironia da minha pressa de manhã.
O artigo me veio a cabeça mais uma vez quando parei para ler algumas críticas da Semana de Alta Costura. Esse ano Paris estava especialmente vazia. Com a crise, a festa da moda ficou mais modesta. Nem todos puderam ir. Alguns shows também tiveram o número de convidados reduzido. Muitos questionavam a relevância da Semana de Alta Costura, tão “fora da realidade” com os seus preços exorbitantes. Com a recessão como inevitável pano de fundo, a conecção entre um vestido com o preco de um carro e o consumidor parecia quase fantasia. Quando eu penso em moda penso em números, em uma indústria pulsante, em ideias sendo vendidas a cada segundo na forma de uma saia ou um vestido sob a desculpa de um coquetel ou de mais um dia de trabalho. Quando eu penso em Alta Costura, no entanto, penso em beleza. Na incansável busca pela perfeição. Na forma que alguns pedaços de tecidos podem transformar em sonho . Analisá-la pelo simples prisma do mercado é esquecer que a moda, no final das contas, é pura estética.
Valentino, no seu filme “Valentino the last emperor”, não esconde o que o manteve na indústria por tantos anos. “I love beauty” e explica: “its not my fault”. Valentino talvez sinta uma ponta de felicidade cada vez que o seu olho encontra algo intrigante e belo. Mera frivolidade? Não. Alain de Botton argumenta em seu livro “the Architecture of happiness” que tendemos a subestimar a influência do espaço em que vivemos quando na verdade é uma fonte de felicidade. Em outras palavras: a arquitetura de uma beleza inteligente nos faz feliz. O olho encontra o belo e a mente encontra alguma paz. Mais recentemente, ele finalmente se curvou ao tema da moda, historicamente esnobado por filósofos. Depois de ver uma amiga com um vestido Chloé, ele refletiu sobre a maneira que o vestido e amiga interagiam. Percebeu: "isso é arte". Ao contrário da arquitetura ou das artes plásticas, no entanto, a moda é vítima do fato que uma roupa se desfaz com um tempo. "Dessa forma moda é mais parecida com culinária do que arquitetura", ele analisa, " ao contrário do prédio que fica erguido por anos, a roupa dissolve assim como a comida; tal como a beleza das pessoas, ela passa".
A moda é vítima dessa natureza efêmera. Não conheço muitas pessoas que compram Alta Costura, conheço um pouco mais que compram arte contemporânea. Entendo que um vestido não seja visto com a mesma seriadade que um quadro, mas não acho que Damien Hirst tenha porpósitos menos comerciais do que um couturier. A diferença é que um vestido geralmente não é pendurado na sala para ser apreciado todos os dias. Se o campo da arte realmente toca o campo da moda em algum ponto esse campo é a couture. Basta olhar para trás e ver as coleções mais icônicas de Saint Laurent, o espírito bohêmio dos anos 70, mulher e homem se redefinindo nos anos 80, todas as épocas devidamente traduzidas em objetos. As coleções de Alta Costura podem até passar como relâmpagos apenas para serem reinventadas em seis meses, mas será que isso as torna menos relevantes? Se você visse Joshua Bell no metrô, sera que você ia parar para ouvir?



